Uma indagação perturbadora



A seguir está um texto que o Novaes publicou em seu blog. Com o conhecimento histórico, a inteligência e sagacidade que lhe são peculiares ele escreveu este texto questionador sobre a realidade histórica do Haiti: http://www.carlosnovaes.blogspot.com/.

Uma indagação perturbadora
Desde as terríveis notícias do terremoto ocorrido no Haiti há uma semana, uma indagação perturbadora bate e rebate com insistência em nossa mente: como Deus permite uma tragédia dessas?

O pastor Pat Robertson, tele-evangelista pentecostal que apresenta o programa Clube 700, um dos mais acirrados porta-vozes do fundamentalismo norte-americano, afirmou que os haitianos estão sofrendo as consequências de um pacto com o demônio feito por seus antepassados para obterem a independência da colonização francesa.

É assim mesmo. Diante de catástrofes naturais — como o tsunami que atingiu diversos países do Oceano Índico em 2004 e o furacão Katrina que, no ano seguinte, destruiu completamente a cidade de New Orleans — ficamos perplexos e confusos. A existência de um Deus amoroso e misericordioso parece perder o sentido e, descartando a possibilidade de duvidar da sua bondade, alguns partem para uma interpretação oposta, e acenam com a ira divina como resposta.

Afirmar que a tragédia do Haiti foi um castigo de Deus por causa das crenças do povo na feitiçaria é, além de completo desconhecimento da revelação bíblica, uma colossal ignorância científica.

Para quem não sabe, os terremotos acontecem devido à acomodação das placas tectônicas e às falhas existentes entre blocos rochosos subterrâneos. Quando essas placas colidem, as ondas sísmicas se propagam na superfície e provocam vibração do solo, abertura de extensas falhas geológicas, deslizamento de terra e conseqüentes desabamentos de construções e edificações diversas.

Trata-se, portanto, de uma ocorrência natural que resulta em mortes, desabamentos e destruição apenas porque há cidades inteiras erguidas justamente sobre as fronteiras dessas placas rochosas.

Por outro lado, a miséria do Haiti é uma herança de imposições imperialistas do século 19. O Haiti foi o primeiro país das Américas a abolir a escravatura, em 1794, e — em consequência disso — sofreu um bloqueio comercial, patrocinado por pelos Estados Unidos e outros países escravistas da Europa, que durou décadas.

É uma herança também de governos ditatoriais e tirânicos, como o de Papa Doc e seu filho Baby Doc, apoiados pelo governo norte-americano durante os anos da Guerra Fria e o período da disputa com o comunismo de Cuba, a ilha vizinha.

Baseados em textos do Antigo Testamento, que já não podem mais ser lidos sem a filtragem da mensagem do Evangelho, pregadores esvaziados de qualquer compaixão e misericórdia apontam seus dedos hipócritas para o povo haitiano, sentenciando-os à condenação por idolatrias e feitiçarias — como se grande parte desses evangélicos neopentecostais modernos não pudessem também ser acusados de abominável feitiçaria e idolatria repugnante em cultos manipuladores e programas de televisão que mais se assemelham a sessões de curandeirismo em tribos africanas ou de rituais de pajelança em aldeias indígenas.

Afinal, perguntam descrentes empedernidos e crentes imaturos, como o Deus de amor e graça permite uma tragédia dessas?

Tragédia e sofrimento, meus caros, fazem parte da vida. A acomodação das placas tectônicas são movimentos espontâneos da natureza. Furacões e tsunamis também. No meio deles, encontram-se as sociedades humanas. Nem mais, nem menos do que isso.

Desgraça mesmo é saber que, como se não bastasse ter de conviver com as imprevisibilidades da natureza, os seres humanos produzem o efeito estufa, o aquecimento global, os desmatamentos, a contaminação das águas e a destruição da camada de ozônio por causa de esfaimada cobiça e desenfreado amor ao dinheiro.

Como os seres humanos continuam a promover tal destruição, apesar de saberem que eles mesmos serão as vítimas, é a verdadeira indagação perturbadora.








Um comentário:

EZEQUIAS A. MARINS disse...

Estive no Haiti a um mês e ele ainda permanece no meu coração... inclusive tenho artigos em meu blog sobre esse tema...